
Olá galera.
A minha vida tem dado muitas reviravoltas nesses últimos meses e as coisas não estão sendo fácil para mim. Por essas e outras "Banshee-Os Guardiões" ainda não está à venda.
Para não decepcionar as pessoas que acreditam em mim e em minha obra, eu estou postando aqui mais um pedaço generoso do primeiro capítulo para vocês.
Divirtam-se. (O início do capítulo está neste link: http://bansheethebook.blogspot.com/2009/04/informacoes-sobre-publicacao-de-banshee.html)
– Você o quê?! – perguntou Iollan, entrando na cozinha pela porta do jardim. Seus olhos fuzilaram Cleona. – Por quê?!
– Porque durante toda a minha vida eu venho perguntando a vocês sobre mim!
Brianna falava clara e pausadamente. Estava cansada e triste, como se aquela procura por si mesma estivesse sugando todas as suas energias.
– Ninguém me explica. Por anos eu aceitei todas as suas desculpas… Mas, se vocês não perceberam, eu não sou mais uma criança, não desejo mais ter pais heróis, quero a verdade, seja lá o que for. A ausência de uma identidade me incomoda. Por isso eu decidi procurar um profissional, alguém que me ajudasse a encontrar algo sobre mim, algo que vocês sabem e me escondem! Alguém que me ajude a descobrir o porquê de eu ser tão rica já me aliviaria muito. Mas... ele não encontrou nada. Absolutamente nada! Miraculosamente eu não me encaixo em nenhuma árvore genealógica do meu sobrenome. Não há primos, tios, avós… Ninguém! Mas, como eu, por motivos óbvios, já imaginava, eu não nasci na Irlanda.
– Como assim? – perguntou Cleona, demonstrando surpresa.
Brianna perdeu a paciência.
– Olhe para mim! – ela apontou para o cabelo, os olhos e a cor de pele em gestos, que, se não fossem em um momento crítico, seriam cômicos.
– Você tem a pele clara…
– Eu sou morena.
– Morena clara…
– Cleona!
– Você pode ser uma mistura, hoje em dia todo mundo é misturado!
– Já chequei. Depois disso eu mandei fazer uma busca na América do Sul. Só respostas negativas até agora. Me sobra ainda o sul da Europa… Mas isso pode demorar anos! Claro, isso considerando cor da pele e situações mais lógicas, porque eu posso ter vindo de qualquer lugar! E é humanamente impossível que eu não tenha nenhum parente, nem hoje nem ontem!
Como os meus pais desapareceram no ar? Me diz... Onde está a tumba deles? Eu nem sei em que cemitério eles foram enterrados! Eu começo a me perguntar se há algo de errado com eles. Se foram traficantes, ou quem sabe nem morreram! Me abandonaram simplesmente!
– Brianna, não é assim tão simples… – disse Cleona tentando explicar, já extremamente nervosa. O cerco se fechava.
– Ah, não? – Brianna levantou-se. – Então me diga! Porque vocês são as únicas pessoas no mundo inteiro que podem me esclarecer essa história!
– Eu…
– Vamos lá, Cleona, fale! Eu não sei o porquê disso tudo! Você está vendo que essa coisa toda me destrói e não me diz nada!
– Já disse… eu conheci sua mãe… ficamos amigas… Tudo aconteceu muito rápido!
– Está vendo! É disso que eu estou falando! Você só usa essas palavras vazias, soltas no ar. Agora eu já nem sei mais! O que houve?! Eu fui seqüestrada, é isso? Você me pegou em algum lugar quando eu ainda era um bebê e existe uma mãe lá fora procurando pela filha desaparecida?
– Páre com isso! – dizia Cleona aos prantos. – Eu só queria te proteger!
– Me proteger de quê? O que pode ser mais cruel do que essa falta de informação? Se eu posso confiar em você, me fale a verdade!
Cleona sentou-se em uma cadeira, pôs o rosto entre as mãos e começou a chorar. Os soluços soavam alto.
Brianna olhou para Iollan, que assistira a tudo sem nada dizer, ele manteve-se calado, ignorando seu olhar sedento por respostas. Ela saiu enfurecida para o quarto.
– Eu poderia ter te defendido, mas você mereceu. Eu sei o quanto você a ama, mas você mereceu.
Brianna estava arrasada. Levantou. Saiu da banheira desanimada, secou-se e vestiu um roupão branco, que estava em um cabideiro de ferro brilhante. Desceu. A escada a levaria a um saguão. O enorme lustre de cristal no hall não deixava dúvidas quanto à posição social daquela menina de vinte anos.
A entrada da cozinha ficava embaixo da escada. Caminhou até lá, onde certamente encontraria seus tutores: Cleona e Iollan.
Brianna era órfã desde que podia se lembrar, e sempre teve os dois empregados como sua família; por isso a briga com a mulher a machucara tanto.
A cozinha espaçosa tinha uma decoração moderna, armários grandes, com muitas gavetas largas, um fogão com um sugar ao fim do balcão, que rodeava boa parte da cozinha, uma mesa de madeira escura para quatro pessoas ao fundo, próxima à grande janela e à porta que levava ao jardim.
Cleona preparava chá de erva doce, que a moça tanto gostava.
– Que horror! – exclamou Cleona ao ver a outra entrar na cozinha, evitando olha-la nos olhos. – Parece um fantasma!
– Obrigada, agora me sinto bem melhor. – respondeu Brianna, com o humor que lhe era peculiar, buscando coragem para tocar novamente no assunto da noite anterior.
Iollan entrou na cozinha pela porta do jardim.
– Minha querida… Você está com cara de quem viu o monstro do armário! – disse ele, tentando amenizar o clima na cozinha. Brianna deu um sorriso amarelo.
– É incrível a capacidade que vocês têm de fazer com que eu me anime! – andou até a geladeira, abriu-a, pegou uma maçã e mordeu.
Brianna encostou na porta da geladeira e pousou seu olhar sobre Cleona. A mulher não a fitara em nenhum momento, Brianna estava incomodada e resolveu falar.
– Você chorou a noite toda, não é mesmo?
Cleona nada disse.
– Cleona… Eu… Eu sinto muito. Não queria te machucar. Você tem sido minha mãe por todo esse tempo... – Brianna estava com os olhos cheios d’água. – Mas eu me sinto perdida. A minha vida é tão vazia. O que eu estou fazendo é absolutamente normal. Eu quero ser uma pessoa segura… Você sabe que eu vivo entre realidade e fantasia, lutando para que as minhas alucinações não me levem o juízo.
– Você anda sonhando novamente? – perguntou Iollan, lançando um olhar indignado para Cleona.
Brianna suspirou.
– Às vezes. Eles não mudam, eu não sei mais o que fazer. Eu já não sei quando estou dormindo ou acordada. Tento me livrar dessas coisas, ocupar a minha mente. Tomo os meus remédios regularmente…
– Você ainda toma? – perguntou Iollan cortando-a. – Eu ja falei…
– É, eu sei… mas o Dr. Ackman me disse que eu estava fazendo grandes progressos. Por causa dos medicamentos eu não tenho sonhado com tanta freqüencia... – ela fez uma pausa. – O que eu quero dizer com tudo isso é que acredito que o meu problema é a minha identidade, ou a falta dela. Tenho certeza que a ausência do meu passado influencía. Se eu soubesse da minha história, quem os meus pais foram seria tudo diferente. Sei que eu posso lutar contra essa doença!
– Nunca mais use essa palavra, Brianna! – disse Iollan, não contendo a pena. – Você não tem nada.
Os olhos de Brianna brilharam com as lágrimas que trazia presas.
A jovem caminhou entristecida até a porta do jardim, respirou fundo e olhou para o céu.
– Por que é que não chove hoje? Eu precisava tanto que chovesse... – ela fixou o olhar no azul acima de sua cabeça, pareceu entrar em transe. – Namtú Êntí! – disse ela sem perceber. Voltou e sentou-se em uma cadeira. – Eu não quero mais ver essas criaturas estranhas. Eu não quero que elas povoem a minha cabeça. Eu quero ficar bem! – Brianna demonstrava fraqueza e imenso pesar. Cleona evitava o olhar de Iollan. Um barulho vindo do céu cortou o silêncio. O trovão veio inesperadamente. – É chuva! – disse Brianna sorrindo. – Inacreditável!
A chuva caiu pesada, Brianna pegou o chá e correu para o telefone.
– Até quando ela vai ficar controlando as coisas? – perguntou Cleona.
Iollan balançou a cabeça negativamente para ela.
Brianna subia a escadaria com o telefone sem fio na mão.
– Alô? Anelise? Brianna. Você viu que chuva? Aquela aula ao ar livre com certeza não vai rolar. Tô ligando pra dizer que não vou à Universidade. Não, não tenho pesquisas pra fazer. Certo. Tchau.
– Você entende agora? – disse Iollan irritado, quase num sussuro.
Cleona debruçou-se na pia.
– É isso que você quer? Que ela continue a achar que é doente? Ou, melhor ainda... – disse ele, com sarcasmo – Que ela acabe se perdendo em uma dessas viagens mentais e nunca mais volte? Você ainda se lembra do que aconteceu há um mês?
A mulher estava calada, mergulhada em pensamentos. Claro que ela se lembrava. Aliás, jamais se esqueceria.
A lua brilhava, parecia ainda maior que o normal. Noites de lua cheia preocupavam Cleona, pois Brianna sempre demonstrava um comportamento estranho, agitado, entusiasmado. Já passara muitas noites ao lombo de Pégasus só para não ter que dormir enquanto a lua reinava. Mas não naquela noite; a moça estava cansada.
A tutora passava pela porta do quarto de Brianna.
– Eu não sei se devo ir… – pausa para insistência inaudível. – Cleona pode ficar preocupada. – pausa. – É mesmo necessário que eu vá?
A mulher encostou o ouvido na porta. Brianna estava dormindo de fato; sua voz estava pesada, falava pausadamente.
– Não… eu não posso ficar lá… Eu tenho coisas a fazer aqui… Como assim eu sou mais importante lá? – Brianna riu.
Cleona não contentou-se e abriu a porta. A imagem que teve foi exatamente a que esperava. A janela estava aberta, a cortina voava com a brisa noturna, o brilho lunar atravessava o quarto. O foco de luz lilás fazia-se presente ao redor do corpo de Brianna, sem formas, apenas cor.
– Cleona. – disse a voz jovem feminina. – Já não era sem tempo.
– Deixem-na em paz.
– Ela não está em paz. Ela conversa conosco. – continuava a voz firme, porém amável.
– Há quanto tempo vocês voltaram a entrar nos sonhos dela? Sabem que ela está freqüentando consultórios de médicos humanos, porque acha que está perdendo o senso da realidade? Ela toma remédios!… tudo por causa dessas suas aparições!
– A culpa não é nossa! – disse a voz, mais irritada. – Você parece ignorar completamente a importância de Brianna! Ela tem que voltar! As coisas estão muito piores. Precisamos fechar o Triângulo antes que seja tarde demais…
– Eu direi a ela.
– Claro que dirá… Mas, até lá, tudo estará perdido.
O corpo de Brianna começou a levitar na cama.
– O que você pensa que está fazendo, Eachna?!
– Eu vou mostrar a ela o mundo de onde veio, o mundo para o qual precisa voltar!
– Não vai!
– Sim, eu vou. Estamos cansados das suas desculpas! Eu sinto muito, mas o pedido da rainha Eleanor terá de ser desrespeitado.
– Deixem-na em paz! – disse Cleona, subindo na cama e puxando a moça de volta para o colchão.
– Eu vou com ela… – disse Brianna, entre alucinação e realidade, ainda com os olhos fechados.
– Não, você não vai!
– Cleona, você não me deixa escolha!
–Eu falo com ela.
A luz lilás brilhante voltava a envolver Brianna. Cleona queria falar mais alto, ou gritar por ajuda, mas tinha medo que a jovem acordasse e visse, com os olhos abertos, o que estava acontecendo. Mas ela não acordaria, estava enfeitiçada e Cleona sabia.
Ao ver o movimento e a claridade dentro do quarto de Brianna, Iollan decidiu ir até lá.
– Iollan! – exclamou Cleona aliviada.
– Eachna… É você?
– Eu não costumo mudar a cor da minha luz, Iollan. – disse a voz, rindo amigavelmente.
– Há quanto tempo está aqui? Volte antes que perca energia demais! – disse ele, preocupado.
– Eu sou bem treinada, e, além do mais, é por uma boa causa.
– Você não vai fazer o que eu acho que fará, ou vai?
– Se você acha que eu vou levar Brianna até Banshee, está certo.
Iollan olhou para Cleona. Ela já estava em lágrimas, abraçada à Brianna, que dormia profundamente.
– Agora basta! – disse a voz.
A luz envolveu Brianna mais uma vez e desceu-a para que pudesse deitar-se no colchão.
A jovem sentou-se na cama, levantou-se e começou a andar em direção a janela.
– Páre com isso, Eachna!
– Você já foi avisada, Cleona – disse a luz.
A moça continuou andando lentamente, repetindo: “Eu preciso ir.”
Subitamente ela parou. Um brilho prateado saído das mãos esticadas de Iollan paralisou-a.
– Iollan, deixe-a! Ela vai voltar para cá, eu só quero mostrar.
– Eu sinto muito, Eachna. Mas não desta maneira! Brianna anda tendo muitos problemas, pessoas aqui tentam convencê-la de que ela está doente… Isso só pioraria o estado dela.
– Vocês deixaram isso chegar longe demais!
Brianna voltou a andar.
– Eachna! – Iollan falava com mais autoridade. – Eu respeito muito a sua magia e os seus motivos. E embora eu ache que você esteja coberta de razão... – ele lançou o olhar para Cleona. – Eu tenho que pedir que a deixe. Esse não é um bom momento!
A moça já estava perto da janela. Cleona tinha as mãos cruzadas, exibindo extrema tensão.
– Certo… Se você acha melhor assim. Eu só espero que o susto tenha valido para alguma coisa. – a voz começou a soar preocupada. – Banshee e tudo mais está perto do fim. Impossível que você não sinta o coração doer por isso, Cleona.
Ainda dormindo, Brianna começou a voltar para cama e deitou-se. A luz lilás desapareceu. Iollan lançou um olhar de reprovação para a duende.
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