domingo, 18 de abril de 2010

Capitulo 1 (continuação)



(...)
Lembrar daquele dia deixou Cleona em estado depressivo. Ela sabia que todos tinham razão, mas tinha medo de contar a verdade à moça: a vida em Banshee seria muito difícil. Ela limpou os olhos e concentrou-se nos afazeres.
– Nós conversaremos depois. – disse Iollan, saindo da cozinha.

Brianna seguiu pelo corredor acarpetado. Entrou em seu quarto ricamente decorado com piso de madeira. Havia um tapete branco, felpudo aos pés de sua cama, um closet do lado esquerdo da porta de entrada, do lado direito uma escrivaninha de vidro com um laptop prateado desligado. Deixou a xícara de chá ali para esfriar um pouco. A cama larga ainda estava desfeita, sobre a mesma: lençóis de seda vermelhos e brancos, um edredon grosso e macio na mesma cor. Ao seu lado direito estava uma porta de vidro com acesso à uma grande sacada; as cortinas estavam abertas e presas à parede.
A decoração era assim desde que era pequena, ela jamais a mudara. Cleona sempre dizia que a mãe a preparara pessoalmente.
Brianna sentia-se bem melhor com a chuva que caía lá fora. Não estava com a mínima vontade de ouvir seus professores do curso de Artes falando sobre Picasso, Da Vinci ou quem quer que fosse.
Entrou no closet vasto em sua decoração de madeira clara. Havia muitos sapatos organizados em prateleiras, bolsas em outras, gavetas repletas de roupas simples, meias e lingeries. Ela suspirou; quase não usava nada daquilo. Foi escolher o que vestir, não estava muito frio, a chuva repentina era refrescante, queria pôr alguma coisa que não a prendesse. Olhou suas araras repletas de roupas para todos os gostos e ocasiões. Não, ela decidiu. Abriu uma gaveta, pegou uma calça jeans, uma camiseta branca, um casaco de moletom bege e botas de montar. De frente para o espelho, que ia do teto ao chão, ela penteou os longos cabelos, amarrou-os a um rabo-de-cavalo. Por fim pegou um estojo de maquiagem. Ela estava parecendo um espectro, de fato. Passou gloss de cor cobre nos lábios e coloriu um pouco a face morena, porém pálida. Fez uma careta para si mesma.
– Um pouco melhor.
Ela pegou a xícara e encaminhou-se para sua sacada, acionou, ao lado da porta, ainda no interior do quarto, um mecanismo que fez um toldo branco de plástico resistente mover-se, descendo devagar. Engenhosamenete construído, possuía ferros que saíam da parede e abriam a cobertura.
Brianna saiu, os cabelos balançavam ao vento. Tomava um chá quente, reconfortante. A chuva trazia a sensação de liberdade que ela tanto desejava ter para si o tempo todo. Pégasus relinchava lá embaixo, queria cavalgar. Brianna concordou.
– Aonde pensa que vai? – disse Cleona, entrando no quarto com a bandeja do café da manhã.
– Pégasus precisa cavalgar!
– Com essa chuva? E onde ele está com a cabeça?
Brianna sorriu.
– Em cima do pescoço, onde mais? Ele é um cavalo, Cleona!
– Muito engraçado.
– Como você está? – perguntou a moça. – Espero que tenha me perdoado. Eu…
– Eu estou bem. Não se preocupe. – disse a mulher, sorrindo. Cleona refletiu por alguns instantes. – Brianna,... já pensou na sua festa de aniversário? Está prestes a fazer vinte e um anos...
– Vinte e um não são quinze, Cleona, por que festa?
– Ora, você sabe que é tradicional na sua família a festa dos vinte e um anos. A maior idade. A data mais importante…
– Ta aí! Mais uma coisa! O que mais? – Brianna parecia aborrecida. – É isso o que eu digo o tempo todo. Você sabe e não me fala!
– Querida, você sabe que os seus pais...
– Morreram! Sei, sei... E os outros? Eles não tinham pais ou irmãos? Eu não tenho primos, tios. Nada! Me explica o porquê de eu não achar ninguém!
Cleona abaixou a cabeça. Não tinha o que dizer.
– Sinto muito, Cleona. Você e Iollan são as únicas pessoas que tenho no mundo! Mas essa história toda está começando a me cansar.
– Não fico triste por mim, Brianna, mas por seus pais. Não pense deles nada contrário a amor e dedicação... Você era tudo pra eles.
– Eu sei. – Brianna envolveu Cleona nos braços e beijou sua testa.– Desculpe-me, Cleona. Às vezes só tento me encontrar, está bem?
– Está certo.
– Atrapalho? – perguntou Iollan, que entrava no quarto.
– Não – respondeu Brianna, limpando as lágrimas dos olhos.
– O que uma jovem com tanta beleza está fazendo com um rostinho tão triste? – perguntou Iollan querendo animá-la.
– Nem é tanta assim... Será que vocês não entendem mesmo? –Brianna saiu do quarto, visivelmente chateada.
– Não dá mais para esperar. Está na hora de contar a ela, Cleona.
Brianna foi à cozinha e fez uma sacola de piquenique com pão, frutas e tudo mais que, provavelmente, iria comer ou beber durante o dia. Sem dúvidas não voltaria para o almoço. Iollan e Cleona sussurravam no sagão de entrada, ele gesticulava. Brianna olhou, disfarçadamente, pela porta da cozinha, mas não conseguia entender o que diziam.
Pégasus apareceu na porta e relinchou. Brianna sorriu e pegou a sacola de comida.
– Tchau pra vocês! – ela não esperou que eles respondessem, saiu para cavalgar.
Um instinto estranho estava tomando conta de seu corpo. A água no rosto a fazia se sentir livre. As horas passavam rápido quando ela estava na companhia de seu cavalo; ele era para ela um pessoa, tinha olhos tão sinceros que pareciam de fato entender tudo o que ela dizia.
A chuva tinha ido embora. Era possível ver o sol e este já tinha passado muito da linha central.
A hora do almoço se fora há muito. Ela decidiu sentar-se embaixo de uma árvore próxima à um córrego d'água, soltou Pégasus para que ele pudesse pastar e matar a sede. Olhou em volta. Todo aquele espaço de terra pertencia à ela, aqueles lagos, aquelas árvores, aquela mansão. Respirou fundo. Sentia-se tão sozinha. A tarde caía com velocidade, o sol logo ia se pôr. Ela abriu a bolsa e montou seu piquenique; tinha rodado seus domínios e perdido a noção do tempo, mas agora estava com fome.

No hall do casarão, Iollan e Cleona discutiam mais uma vez.
– Cleona, está na hora sim! – insistia Iollan. – Aliás, a hora já passou há muito tempo!
Ela não concordava com aquilo. Para ela nunca seria a hora. Não, ela não contaria.
– Espere que ela chegue! – disse em tom irritado, para que ele parasse de falar.
Nesse momento, um barulho. A grande porta de entrada abriu-se com violência.
– Éamonn! – exclamaram os dois. O homem velho, alto, de barba grisalha aproximava-se; sua expressão bondosa e sábia tornou o lugar cheio de uma energia leve. Sem quaisquer palavras caminharam para o escritório.

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