
(...)
O lugar era uma vasta sala cheia de prateleiras com livros, duas poltronas pretas de couro, aconchegantes, um sofá grande na mesma cor, uma mesa de centro em mogmo. Sobre o piso de madeira um tapete persa em marfim, uma lareira à direita. A grande escrivaninha de madeira ficava abaixo da janela, coberta com grossas cortinas cor de terra.
Éamonn sentou-se em uma das macias poltronas. Parecia cansado.
– E como vai a nossa menina? – perguntou o velho.
– Em dúvida constante, Éamonn. – respondeu Iollan.
– Natural. Já não era sem tempo! Cleona... – disse o velho se acomodando na poltrona – Iollan me mandou um informe avisando que você não quer contar a Brianna o que realmente aconteceu, mesmo depois de todos os anos em que ela vem sofrendo acreditando estar doente.
– Prefiro que ela continue aqui.
– Ora, me desculpe – disse Iollan. – Mas aqui não está em jogo o que você prefere! O combinado foi que ela voltaria quando estivesse pronta!
– Mas ela não está pronta – disse Cleona quase numa súplica. – Éamonn, por favor... Ela não tem idéia de nada! Deixem-na viver aqui, em paz.
– Brianna não está em paz! – cortou Iollan rispidamente – Éamonn, Brianna está inquieta e infeliz. Está perdida e solitária, tem direito de saber quem é, de onde veio e para que veio!
– Onde ela está? – perguntou Éamonn, serenamente.
– Cavalgando. – disse Cleona, secamente.
– Com Pégasus, eu suponho – o velho soltou um riso. – Ele jamais se separou dela.
– Éamonn – continuou Cleona – por favor, deixe-a aqui... Em paz conosco. Um dia ela esquece que não se encaixa. Vai viver bem.
– Cleona – disse Éamonn com tranqüilidade – Brianna nunca vai se “encaixar”, como você diz. E até me admiro que ela nunca tenha pego um deslize de vocês dois!
– Somos cuidadosos. – acrescentou Iollan.
– Isso é bom, mas já basta. – continuou Éamonn – Cleona, será que você não entende o que está acontecendo? Banshee não é mais o que foi um dia. É necessário que Brianna volte aos seus!
– Isso não!
– Cleona! – persistiu Iollan. – Você mesma vive dizendo que adoraria voltar para Banshee definitivamente. Então, eis a nossa chance!
– Mas isso não inclui colocar a minha menina à frente de um campo de batalha!
– Entendo sua preocupação. – disse Éamonn. – Eu mesmo por várias vezes já pensei em tentar fazer com que o reino todo lutasse sem ela, e talvez até mesmo refazer o Triângulo de Poder sem a presença do sangue real, mas as coisas não funcionarão sem a rainha. Ela não é só a líder de uma guarda. E muitos só lutarão com Brianna à frente!
– E Lugh? Para que serve o capitão da guarda senão para isso?
– Lugh tentou, Cleona, mas nem todos o seguem! Sabe muito bem que Aine e Epona não permitirão que seus povos retornem aos campos de batalha sem antes conhecerem a rainha, e antes que ela as convença! E muito menos Hipólita... Você sabe o que aconteceu da outra vez.
– Ele precisa conseguir, diga que a rainha não quer ir! Que não vai se acostumar!
– Ora, Cleona, pare com isso! – disse Iollan.
– Cleona – disse Éamonn – você acha realmente que um dia Brianna não vai perceber que você é um duende? Ou então que ela tem poderes mágicos que podem prejudicá-la no futuro? Brianna tem o direito de saber que é uma princesa e que seu povo depende de sua volta para continuar existindo!
Brianna abriu a porta. Trazia uma expressão debochada em seus olhos.
– Brianna! – exclamou Cleona.
– Então é isso? Eu sou uma princesa? – disse ela, rindo. – Que maluquice é essa agora?
– Não é maluquice. – tentou explicar Iollan.
– Você não, Iollan! Eu quero saber quem é esse aí vestido para o Halloween. – ela continuava rindo.
– Eu sou Éamonn, conselheiro da coroa há muitas décadas.
– Há! – riu Brianna. – E o que você é? Um merlim?
– Exato. – respondeu o velho, calmamente.
Brianna ria.
Éamonn não era exatamente a imagem de “merlim” que ela tinha na cabeça. Sempre imaginou que eles fossem brancos, de longas barbas e longos cabelos grisalhos, mas o conselheiro da coroa era negro e tinha barba e cabelos curtos.
Ele sorria para ela com o olhar e era tão simpático que Brianna, por um momento, quase acreditou nele.
– Que brincadeira é essa agora?
– Não é brincadeira, querida – disse Cleona.
– E o que é Banshee? Está no mapa, por acaso? – ela riu. – Olha… este ano a produção da minha festa está melhor do que eu imaginava.
– Festa? Não, não... – o velho olhou para os tutores, confuso. – E, respondendo a sua pergunta, Banshee é um outro planeta, Brianna, não fica na Terra.
– E vocês esperam que eu acredite nessa história ridícula? Agora eu sou uma alienígena? Mas eu não sou nem verde, nem tenho antenas! – disse ela, achando graça.
– Entendo que para você seja difícil, – continuou Éamonn. – mas preciso que volte para lá. Banshee está precisando de sua rainha.
– E essa rainha sou eu?
– Isso.
– Então, merlim, você está atrás da rainha errada... Eu nem sei do que vocês estão falando e não vou compactuar com essa loucura. Com licença, estou cansada – ela riu e disse, com humor: – E podem ficar tranqüilos… Eu vou fingir que não sei o tema da festa. – Brianna se virou, e antes que saísse, Éamonn falou.
– Querida,... você nunca fez nada que tenha considerado impressionante? Nunca moveu nada de lugar? Nunca fez nada acontecer?
Já havia acontecido. Várias vezes. Certa vez, no curso de Artes Plásticas, ela queria uma combinação de cor que não era possível.
– Ora, Brianna! – disse Anelise. – Não tem como!
As jovens riam e Brianna não desistia.
– Mas eu quero!
Ela olhou fixamente para os potes de tinta, derramou uma de cor vermelha numa vasilha vazia, parecia querer que a coloração a respondesse com palavras. Respirou fundo e instintivamente falou.
– Eu quero uma cor entre o roxo e o lilás que me dê um azulado delicado, quase imperceptível e que brilhe como um raio de sol!
Brianna respirou fundo novamente; parecia tomada por uma força maior.
– Nepunía Zentuntsalê!
Anelise observava a amiga, que parecia não estar ali. Brianna olhava fixamente para o pote. Queria perguntar o que ela havia dito, mas não teve tempo, o vasilhame com a tinta começou a balançar, tremia como se estivesse em cima de uma máquina de lavar descontrolada. Um barulho seco como o de um tiro, quase inaudível, saiu do recipiente, junto com um brilho que quase cegou todos na sala, que imediatamente olharam para ela.
– Fogo... – disse Anelise sem ação, segurando o maçarico para justificar aos outros o que havia acontecido.
A turma voltou a olhar seus próprios trabalhos e as duas continuaram paradas olhando para aquilo.
– Eu consegui! – disse Brianna rindo incrédula. – Você viu? É a cor que eu queria!
– É... – Anelise olhava assustada para Brianna –. O que foi que você disse?
Ela apresentava um comportamente estranho, parecia confusa.
– Você está bem?
– Claro que eu estou bem. – Brianna estava fascinada.
– Mas eu… – Anelise quis falar algo, mas não disse. – Por que você disse aquilo?
– Isso não importa, vamos testar!
Brianna estava empolgada com o que acontecera; mal importava saber como aquela tinta vermelha tinha virado, sozinha, o tom de cor que ela queria. Pegou um pincel limpo, devagar lambuzou-o com a cor de beleza incomparável. Ela havia desenhado uma flor, uma que tinha para ela um significado forte e especial, mas que ela não sabia explicar qual era. A flor era conhecida na Terra flor-de-lis.
Delicadamente pintou-a. Mais um acontecimento mágico: a flor tornou-se real, caiu da tela em sua mão. As amigas entreolharam-se.
“É isso aí, gente. Até semana que vem.” – a voz da professora soou animada.
Fim da aula.
Ela não quis falar sobre isso e nem sobre todas as outras coisas estranhas que aconteciam depois que ela desejava, ela preferiu acreditar que sonhara com elas.
Agora temia que mais uma vez o seu cérebro lhe estivesse pregando uma peça.
Haviam lhe dito que era princesa de um outro mundo, que tinha poderes mágicos e que seus empregados eram personagens de contos de fadas. O medo de que mais uma de suas alucinações estivesse invadindo sua cabeça novamente crescia.
Brianna não aceitava que seus tutores estivessem brincando com sua doença. E quanto àquele merlim? Ela nem mesmo tinha certeza de que ele realmente estava ali.
Antes que algum deles a alcançasse, ela saiu e montou Pégasus. A chuva não tinha retornado, o céu estava estrelado e a lua cheia brilhava, majestosa.
Brianna chorava. Não aceitava que de repente sua esquizofrenia estivesse com força total, ela estava assustada com tudo aquilo, nunca sentiu ser tão real.
Aconteciam coisas estranhas de fato, sempre, mas sabia que eram parte da sua doença e ela não deveria deixar-se levar. Porém, de certa forma, o nome Banshee lhe causara arrepios.
Ela parou em um lago, atrás da mansão, onde a lua refletia e ela poderia, então, pensar. Olhava-se na água. Tentava, mas não via coerência naquilo, ela tomava seus remédios. O que havia dado errado?
– Como? Como, Pégasus? Você acredita nisso? Eu? Uma aspirante à rainha, de um lugar perdido no Universo chamado Banshee! Uma guerreira que precisa unificar um reino como se fosse Joana D’arc! – ela suspirou. – Por que eles fizeram isso comigo? Cleona e Iollan sabem muito bem o quanto eu tenho lutado contra as minhas alucinações, agora me aparecem com essa! Eles devem ter preparado essa história para me assustar... Todo aniversário é isso, sempre uma brincadeira nova! Mas desta vez foi demais!
Em todos os aniversários de Brianna, os dois empregados preparavam uma surpresa estranha. Uma vez até mesmo desapareceram com seu carro e fingiram que havia sido roubado, simplesmente para que ela ficasse tempo o suficiente fora e não visse os convidados chegando.
Eles cuidavam de tudo, todos os anos, para que as coisas não fossem tão chatas nem comuns e ela pudesse, por um momento, esquecer da família ausente.
Ela encontrara a resposta para aquela conversa estranha: sua festa de aniversário, mas desta vez doía, eles mexeram com a sua doença, sua grande ferida.
– Agora, quanto àquele merlim... – disse ela, rindo novamente – Um excelente ator!
– Éamonn não é um ator, Brianna!
A voz masculina era forte e aveludada.
– Ué, mas quem?
Brianna parou de fitar sua imagem no lago e olhou para trás, assustada, para encarar o dono da voz.
– Quem falou? – ela já tremia.
– Eu. – respondeu Pégasus.
Brianna soltou um grito agudo ao ver a boca do cavalo se mexer, e quis correr.
– Que diabos?!...
Ela correu para um lado, ele a cercou. Ela chorava, em pânico. Não sabia o que fazer, estava completamente aterrorizada.
– Brianna, escute.
– Cala a boca! Você não é real! Eu sei que você não é real! – ela falava e a voz misturava-se a um pranto desesperado, e cada vez que tentava fugir, o cavalo fechava o caminho.
O medo tomava conta dela, seu mundo girava, ela não conseguia entender o que estava acontecendo, sentiu falta de ar e tentou ignorar o cavalo, em vão.
Brianna ajoelhou-se, colocou a cabeça entre as pernas e segurou-as com as mãos. Balançava-se como uma louca. Tampava os ouvidos. Tremia. Gritava. Tinha certeza de que era uma alucinação. Precisava acalmar-se, era só mais um ataque de sua doença, logo o seu cavalo seria o mesmo ou ela acordaria do pesadelo. Era só respirar fundo que o animal falante em sua mente iria embora, assim como todas as outras coisas sem sentido que ela criava em sua mente.
Ela puxou do bolso do moleton uma caixa com seus remédios para emergência. As mãos tremiam, as lágrimas banhavam a face.
– Brianna, por favor, não tome isso. Olhe pra mim... – ele pedia, penalizado.
Ela gritava para não ouvir a voz bonita que saía de Pégasus.
O corpo da moça inteiro chacoalhava. Ela não estava bem, podiam-se ouvir os soluços a muitos metros de distância. Estava apavorada, desejando que não estivesse acordada, e temendo seriamente ter aumentado o grau de sua esquizofrenia.
Aquele era o pior pesadelo que já tivera em sua vida. Precisava sair dali, mas aquela aberração não a deixaria passar. O que ela faria? Pensou em gritar por socorro, mas ninguém a ouviria.
O cavalo estava quieto. Era a sua chance. Ela correu. Depois pediria desculpas a ele, era um amigo sempre tão atencioso (embora não fosse pensante), mas naquele momento ela precisava fugir, antes que sua cabeça a prendesse de vez na insanidade.
– Brianna! – o cavalo gritou. – Éamonn é conselheiro da coroa de Banshee há muitos anos... Foi conselheiro de sua mãe.
Seu corpo estava ainda instável, mas ouvir falar de sua mãe mexia com seus sentimentos, tudo o que ela queria era ter a mãe por perto para conversar, aconselhá-la, e aquela alucinação citara sua mãe. E ainda que fosse num momento de fantasia, Brianna desejava saber dela, e com isso descobrir um pouco sobre si mesma. Ela respirou fundo. Voltou de costas a passos lentos, sem olhar para trás, na mesma posição que estava. Teve medo de olhar: não sabia se ouvira mesmo uma voz ou se a criara, mas era sobre sua mãe, e ela queria ouvir, mesmo que fosse unicamente para alimentar as suas ilusões.
– Minha mãe?… – ela engoliu o choro. – Você conheceu a minha mãe? – perguntou, sem certeza de resposta e com medo que ela viesse de fato.
– Claro! Sua mãe foi quem me mandou ficar na Terra com você e protegê-la.
Ela virou-se devagar. Foi andando até o eqüino imóvel. Ela aproximava-se lentamente, receosa. Ainda tremia, respirava cada vez mais fundo para controlar-se. Aquele animal fora seu amigo a vida toda, não poderia ser mau. Era absurdo que ele falasse, mas quantas coisas absurdas não aconteciam com ela todos os dias? Ela o amava. Com a mão trêmula ela tocou a cara do cavalo e tirou imediatamente. Ele continuou sem se mexer. Ela tentou novamente.
Brianna olhou profundamente dentro dos olhos do amigo. Com a outra mão limpava as lágrimas. Analisou bem aquele olhar, era o mesmo que sempre fora, a mesma sinceridade, a amizade, o conforto... Sim, era Pégasus, a mesma alma gentil, nobre e pura.
– Eu não acredito em você. – disse ela, na defensiva. – Você é só uma alucinação.
O cavalo suspirou.
– Brianna… Escute o seu coração… Você sabe que eu sou real… Respire fundo.
Com a mão na caixa de remédio, ela assim o fez.
– Então você fala? – Brianna abaixou a cabeça confusa, tentando acalmar-se, ainda incerta.
– Falo. E...
O cavalo tirou as belas asas alvas com pontas douradas de dentro da pele.
– Você voa! – ela foi até uma das asas e tocou-a, temerosa. Eram de verdade, saíam de dentro dele. – Você é um cavalo alado! Não posso acreditar! – a excitação de estar vivendo aquela fantasia deixou-a mais calma. – Isso deve ser um sonho… ou mais uma alucinação... Eu posso estar piorando! – ela voltava a ficar triste e confusa.
Na escuridão, a silhueta de Éamonn começava a aparecer.
– Imagino como deve estar confusa Brianna, mas seu povo precisa de você.
– Até ontem eu nem sabia que era nobre e agora tenho um povo! – respondeu com ironia.
– Seu medo justifica a sua hostilidade, filha.
– Se eu sou tão importante assim... Por que então sobreviveram sem mim até agora? – perguntou ela, desconfiada.
O merlim suspirou.
– Cleona jamais deveria ter guardado isso por tanto tempo. Todos seremos prejudicados. Ela terá que ser punida.
– Não. – interrompeu a jovem – Ela só quis me proteger.
– Sei disso. Ela era amiga de sua mãe, sua babá desde que nasceu, mas isso não justifica ter tirado de você a responsabilidade que tem. E muito menos ter deixado que você acreditasse ser doente! Você não tem alucinações, Brianna, nunca teve.
Brianna abaixou os olhos.
– Eu sinto muito estar sendo tão vago, mas é melhor que você tome conhecimento dos fatos devagar. O motivo que levou a guerra à estourar em Banshee ainda ficará obscuro para você por algum tempo, se eu dissesse agora soaria ainda mais sem sentido – ele aproximou-se de Brianna, que o olhava desconfiada. – Quando viu que não tinha jeito, a rainha Eleanor achou melhor lhe mandar para a Terra, a fim de poupar sua vida até que pudesse retornar à Banshee. Tenho certeza de que as recomendações dela à Cleona não foram para mantê-la cega! Sua mãe era uma guerreira, não aceitaria que a herdeira de seu trono ficasse sem os treinamentos básicos até assumir o reino – ele olhou para Pégasus, demonstrando gratidão, e olhou novamente para a princesa. – Volto à Banshee agora. Espero vê-la amanhã, criança. – ele virou as costas. – Ah! Não leve nada, não vai precisar.
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