
O tema central do meu blog (e livro) não é uma coisa com a qual eu sou familiarizada.
Eu sou baixinha e isso me rendeu e ainda rende boas piadas e gracinhas, mas nada de absurdo ou cruel.
O motivo de eu falar sobre preconceito é por consederá-lo perigoso para a sociedade e até para a alma de um indivíduo. Mas chegou o momento onde eu precisei ser confrontada com ele para entender perfeitamente o quanto dói.
Para aqueles que não sabem, eu estudo Artes Cênicas na “Freie Schauspielschule Hamburg”, em Hamburgo, Alemanha, onde moro. Sim, eu sempre sonhei e ser atriz, o palco é minha casa e quem me conhece sabe disso, mas eu sempre escondi o sonho por medo do que os outros pensariam, como eles me tratariam; e por medo de ser um dia melhor que alguém, e por isso ser rejeitada pela sociedade. Acabei adiando o desejo de seguir carreira naquilo que amo.
Um dia eu, por diversos motivos, decidi que me daria essa chance, que eu também tenho direito de ser feliz e que não importa o que os outros digam. Mas eu não estou mais em casa, não passo o dia todo falando o meu idioma. Tive que aprender alemão e essa não é a língua mais simples do mundo. Acreditem! Eu fiz o que pude, estudei com vontade, fiz questão de deixar o meu (santo) inglês de lado e só falar em “sopa de letrinhas”. Eu não estou há muito tempo aqui, três anos não é exatamente uma eternidade e eu ainda tenho sotaque. Os alemães que eu conheço me elogiam e até admiram pela rapidez e fluencia com as quais eu aprendi o idioma, mas isso não é o suficiente, não para todo mundo.
Como eu disse eu estudo Artes Cênicas e tenho muitos professores, na maioria, logicamente, alemães, que são pessoas competentes, gentis e motivadas. E foi um dos meus professores favoritos que me machucou.
Assim que as aulas começaram eu estava empolgada com ele, um senhor de 85 anos que ainda trabalha na profissão, com tanta experiência que eu nem sei se um dia chegarei a ter. Ele trabalhou no Brasil, na Inglaterra, na Espanha e por aí vai, fala muitas línguas e se gaba das coisas que fez, com razão. Ele mesmo me elogiou no início, disse que era difícil ver alguém que conseguia falar alemão tão bem em tão pouco tempo, mas a reitora estava presente e ele precisou de algumas semanas para mostrar sua cara.
Um dia nós presisamos decorar um texto e apresentar, a tarefa era somente dizer o texto para que os colegas conseguissem ter uma imagem na cabeça sobre aquilo que nós descrevemos, ou seja, era basicamente a qualidade da descrição que estava em jogo e nada mais. Bem, a peça foi escrita no século XVIII e todos temos problemas com a maneira como se falava em tempos que não são os nossos, mas eu, obviamente, tenho o meu sotaque, e isso foi o suficiente para que ele me humilhasse. Perguntou se eu sabia que dessa maneira eu não conseguirira nenhum papel. Claro que eu sabia, eu não sou idiota! Mas a maneira como ele disse me deu a sensação de que ele queria que eu não freqüentasse mais suas aulas. O mesmo aconteceu com a outra brasileira, ele chegou a perguntar a ele qual foi o monólogo que ela apresentou para ser aceita pela escola. Que outras escolas não aceitam alunos estrangeiros, mas a nossa faz, que era um absurdo. E naquele momento ele esqueceu que ele já foi estrangeiro no país dos outros.
Eu pensei em desistir da escola, eu tive vontade de vomitar, de gritar e de brigar com ele. Quem ele pensa que é? Ele nos julgou antes de nos conhecer, antes de saber com que velocidade nós somos capazes de perder os nossos sotaques, porque a escola segue três anos e em três anos nós temos aula de fonética.
Ele começou a ficar issuportável, não queria mais deixar que eu subisse ao palco. Ele me deixou de lado.
A faculdade (aqui chamada simplesmente de escola ehehe) apoia a variedade de culturas no país e é muito orgulha de seus esudantes estrangeiros, portanto, qualquer forma de racismo é banido imediatamente. O professor foi demitido e nós, as humilhadas, ficamos com medo de que os outros estudantes fossem nos odiar, porque ele era um professor querido, bem, assim nós acreditávamos, eu até trabalhei mal no dia seguinte ao acontecido, com medo do julgamento dos colegas, mas o velhinho não era um “bom velhinho” afinal e já outras coisas do tipo já havia acontecido.
No fim das contas tudo voltou as boas, o meu alemão melhora a cada dia e eu trabalho duro para que ele fique perfeito. Mas esse momento em que eu fui jogada de lado, impedida de mostrar do que eu sou capaz só porque alguém que não me conhece acha que eu não vou conseguir... Isso eu jamais esquecerei.
E essa história eu vou guardar no coração para continuar no meu caminha para ser uma pessoa melhor e mais tolerante, porque nada dói mais que a dor do preconceito.
Boa semana a todos.





